Caderno de Uaba

Experimentando a Liberdade

Posted on: julho 5, 2008

Olhando através da janela do carro, Ágatha ficou pensativa, enquanto seus pais conversavam futilidades no banco da frente. Viu um homem, já mais velho, dirigindo o seu carro e pensou “ele é velho e está dirigindo um carro”. Depois, quis ir um pouco além: “esse homem tem uma vida, esposa, filhos, talvez e está ali, no seu carro… em que ele pensa?”. Claro que ela não sabia responder a essa pergunta, mas foi pensando e pensando… Depois, viu uma mulher “ela já foi da minha idade, já fez um monte de coisas que eu fiz, mas sempre diferente do que eu fiz, tudo é diferente para todo mundo”. Pensar era bom para Ágatha, ela sentia-se como controlando o mundo. Podia fazer com que aquela mulher, de repente, tivesse dois filhos, um marido rico (por causa do carro que ela estava dirigindo) e, antes disso, estudava em um colégio de freiras, onde não havia festivais de dança, feiras de ciências e viagens pedagógicas, como havia no colégio dela. “Coitada, não deve ter tido as mesmas alegrias que eu tive”.

Chegando ao seu destino, Ágatha foi fazer compras, sozinha desta vez, a primeira vez em que saía sozinha para aquele lugar onde sempre ia com sua mãe. Foi uma sensação diferente. Primeiro, sentiu como se pudesse tudo, naquele lugar onde o consumismo tomava conta das pessoas, sentiu-se contaminada pelo consumismo, queria comprar tudo aquilo que sua mãe não deixava, queria experimentar a sensação de ter. Porém, lembrou-se de que não tinha dinheiro para comprar tudo o que quisesse, sentiu-se triste e seguiu, automaticamente, para o lugar que deveria ir. “Enfim, estou aqui, preciso comprar só o necessário, pois não terei dinheiro para pagar o que quero”. As pessoas passavam por ela, a maioria com pressa, carregando sacolas enormes, apenas algumas olhavam para Ágatha, mas depois desviavam o olhar. “Será que eu sou tão diferente assim dele?” pensou novamente, aliás, o que ela podia fazer era só pensar mesmo, pois não falaria nada, para que ninguém achasse que ela fosse uma doida. “Posso não ser tão diferente mesmo, aquele rapaz já foi bebê, criança, adolescente, eu também fui então não podemos ser tão distintos” concluiu ela, mas em seguida, viu que seu pensamento não era adequado, “somos diferentes porque vivenciamos sensações, acontecimentos, e estivemos em lugares diferentes”. Depois ela se perguntou se alguém pensava sobre essas coisas, muita gente deveria dizer a ela: “menina deslumbrada, pára de pensar na vida e vai comprar que é melhor”. Ágatha tinha pena dessas pessoas de mente limitada, que não deixavam seu pensamento se libertar das coisas cotidianas e ir além, ir para onde ninguém pensou ou, se pensou, com certeza pensou diferente. “Nada acontece igual para duas pessoas” isto era tão lógico para ela, fazia tanto sentido, não sabia porque, mas ainda iria saber, algum dia, quando seu pensamento se libertasse de vez, atravessasse alguma barreira, até agora intransponível.

Ágatha gostava de pensar. Estava fazendo compras sem sua mãe ao lado, conversando, assim, podia pensar mais ainda. Estava livre, não só da mãe, mas também com os pensamentos livres, com tempo de sobra para pensar no que quisesse enquanto caminhava e comprava as coisas que precisava. Ligou o piloto automático do seu corpo e foi além do ter. Pensar, ser, viver, era o que realmente importava para ela. E não deixaria ser levada por essa onda do ter, não entraria nem no mar, para não ter perigo de ser puxada pela correnteza.

Seleção dos melhores textos que acho que já escrevi. Post de algum dia do ano de 2006.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

A dona

Uaba, 21 anos, Recife. Faço Arquitetura e Urbanismo, mas era absurdamente melhor quando cursava Letras. Ansiosa, perfeccionista e sonhadora. Consumista, que só gosta de ganhar presentes. Sempre procrastinando. Humor super oscilante. ♥ English ♥ an adorable green-eyed white rabbit ♥ Travis

Este mês…

julho 2008
S T Q Q S S D
« jun   ago »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Meu Flickr

Wireless

Shiny Shoes

Trees





Mais fotos

Posts antigos

Stats

  • 66,237 visitas
%d blogueiros gostam disto: