Caderno de Uaba

Archive for the ‘Histórias’ Category

pelas ruas da cidade. Comecei minha jornada bem longe, na Faculdade. Esperei o ônibus por mais de meia hora debaixo do sol, suando litros dentro da roupa que havia passado a ferro cuidadosamente, pois é dia de aniversário de namoro. Sentei logo numa cadeira perto da janela mais aberta que havia e longe do sol, mas, com as voltas que o ônibus dava, sempre vinha aquele raio de calor em cima de mim.

Caminhei até a minha livraria preferida, entrei no banheiro e só queria lavar o rosto. Lavei as mãos primeiro e, quando terminava de secar o nariz com o papel, a porta se abriu de repente e um menino, de mais ou menos 5 anos, gritou: “aaaaahhhhh uma menina!”. Numa fração de segundo, apareceu outro menino igual e gritou: “eitaaaa tem uma meninaaaaaa, mããããeeee!”. Lógico, esqueci de trancar a porta. Atrás dos menino apareceu uma mãe e uma avó: “ai, moça, desculpe, esse menino que entra sem bater. Fulaaano, saia, daí, deixe a menina terminar! É que ele tá apertado! (riso sem graça)”. Ainda bem que minha vergonha não apareceu em forma de rosto-vermelho-quente, joguei o papel fora e disse: “já tô saindo, pode vir…”. Os meninos entraram correndo, peguei minhas coisas e fui embora, mas ainda ouvi a mãe dizer: “coitada da menina…” e os meninos gritarem histericamente de dentro do banheiro. Não sei que tipo de confusão aconteceu lá dentro… Enfim, comprei minhas canetinhas e saí com destino à parada de ônibus mais próxima.

O primeiro ônibus que peguei me deixou na parada certa, onde pegaria mais um e chegaria à livraria Cultura num instante. Porém, o segundo ônibus resolveu, do nada, fazer o retorno muito antes do que eu esperava e estava acostumada. Pra variar, a rainha das linhas de ônibus esqueceu de ler a placa da frente e embarcou. Isso resultou numa parada forçada perto da minha antiga faculdade e numa ligação precoce de socorro ao namorado. Ele, lindo e cheiroso, apareceu de carro uns minutos depois e fomos acabar com minha crise de abstinência por livros, bloquinhos e cruzadinhas.

Para comemorar o aniversário de namoro, ainda fomos ao shopping ficar mais uns minutos em pé na fila da Subway porque hoje é dia de clone! Clonamos os sanduíches (uhhh, que mágico) e ele me eixou em casa. E eu bem que queria fazer mais coisas, passear, namorar, mas os dois têm provas e trabalhos nesta última semana de tortura do ensino superior do ano. Cansei deveras.

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Esta é a história da menina que tinha um banheiro mágico. Seu banheiro parecia um banheiro comum, mas o antigo dono da casa em que ela foi morar, um velho senhor contador de histórias, deixou um “encantamento” neste banheiro, justamente o que ficava no quarto da garotinha. Todas as vezes que a garotinha entrava nele, ela ficava invisível e ia para um mundo diferente, em que ela podia fazer o que desejasse, mas com uma condição: ela teria que imaginar o que queria.

Às vezes, a garotinha estava muito cansada e só pedia um papel e uma caneta para escrever, desenhar ou fazer barquinhos. Quando estava feliz, seu mundo poderia ter um grande gramado verde onde ela se deitava, sem formigas para incomodá-la, e podia observar a imensidão do céu estrelado. Uma vez ela até foi aluna de um colégio interno, numa outra época, só para moças, bem longe da sua família e com muitos deveres de casa. A menina também já usou roupas diferentes, experimentou pratos exóticos e brincou com seu cabelo, fazendo penteados muito estranhos. Frequentemente, ela nadava em poças de lágrimas e sangue, mas terminava escorregando por um tubo até bater na parede do banheiro real. Ela adorava o tubo!

Fonte da imagem

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A garotinha nunca mais quis se mudar para outra casa, pois sentia-se feliz por ter um banheiro mágico. Ninguém sabia dele, nem mesmo seus pais. Certa vez, uma amiga da menina entrou nele. Foi muito tenso, pois ela não sabia se o seu mundo se manifestaria para sua amiga. Aparentemente, a amiga não conseguiu ver nada diferente porque saiu de lá do mesmo jeito que entrou (talvez apenas com a bexiga vazia). Este fato intrigou um pouco a garota, mas ela resolveu não perguntar nada à amiga, o segredo seria quebrado.

Um dia a menina entrou no banheiro e deixou um bilhete escrito: “Oi, tem alguém aí? Alguém pode me ver aqui?”. Colou o bilhete no espelho, fechou a porta e saiu por uns instantes. Quando voltou, havia uma resposta colada embaixo da sua: “É apenas sua imaginação, garotinha!”. Então ela compreendeu que o seu querido banheiro só se “manifestava” de acordo com a mente de quem entra nele. Aí ela pensou na sua amiga, e concluiu que ela não tem imaginação!

Meninha, o que aconteceu? Está tudo bem? Sei que você gosta de conversar com os pássaros, pois seus cantos a confortam. Você não tem dever de casa para terminar? Então por que ainda está aí em cima? Desça, venha comer alguma coisa, para depois estudar. Não quer ir? Sente-se triste e não sabe a razão, sei disso. Também não tenho como saber. Isso acontece com muita gente e é difícil, eu sei. Mas você não deve se entregar, precisa ser forte e tentar. Não durma, menina! É pior! Você não me contou sobre seus sonhos naquele dia?! E você me disse que eram ruins, você sempre estava perdida, em lugares conhecidos, mas perdida. E não conseguia ajuda, pedia, mas ninguém ouvia você. Quer mais um sonho desses, menininha? Não, já sabia. Tente não dormir. Ouça o canto dos pássaros, veja o céu mudar de cor, o sol nascer no horizonte, preste mais atenção no mundo ao seu redor. Mas lembre-se: só enxergue a parte bela. Você precisa desta ilusão boa. Ela lhe fará mais bem do que a realidade crua.

Está na hora, menininha. Coloque os pés no chão, descruba quem você é. Faça o que você quer. Fale com quem você quiser, a hora que precisar. Não tenha medo. Tudo aqui é para você, principalmente as palavras. Um dia você encontrará seu significado, menininha. Um dia nada mais lhe fará sofrer. Um dia a dor passa. Menininha, minha menininha.

Janela

Posted on: outubro 22, 2008

A mocinha estava olhando pela janela como costumava fazer todas as noites, quase na mesma hora. Apoiava a mão no queixo e contemplava sua mente. Por isso nunca notou o rapaz que sempre olhava pela janela do prédio vizinho. Ao contrário dela, ele olhava algo, ele a olhava e sempre se questionava o que aquela moça estaria pensando, pois seu olhar não parecia ver a realidade. Estavam em planos diferentes.

Todas as noites, o mesmo ritual.

Um dia, a mocinha parou de ler o romance, encostou o livro na cama e correu para a janela. Desta vez, não olhou seus pensamentos, mas a realidade. Finalmente ela conseguira sair do imaginário, viu a realidade, viu o mocinho bem ali, no prédio ao lado. Acenou. Ele acenou de volta. Os dois riram. Finalmente haviam se encontrado!

O rapaz entrou no quarto e voltou para a janela mostrando um papel onde havia escrito: “Por que parou de ler?”. A mocinha respondeu no seu papel: “Porque o livro me mandou olhar pela janela!”. Curioso, ele escreveu outra pergunta: “Não quer saber o final da história?”. Ela, sorrindo, mostrou seu papel: “Eu já sei o final…” O mocinho não aguentou: “E qual é?”. A mocinha, então, revelou: “E viveram felizes para sempre”.

Estava navegando pelo tumblr. agora e encontrei esta foto. As prateleiras arrumadinhas do supermercado logo me lembraram um desejo louco de quando eu era criança: sair correndo com um carrinho pelos corredores de um supermercado sem ninguém e coletar o máximo de mercadorias das prateleiras. Tinha essa vontade porque havia um programa na televisão (que, por algum motivo inexplicável, eu só conseguia assistir na casa da minha avó), que era um jogo em que as pessoas corriam por um mercado cenográfico, abarrotando o carrinho de coisas, quem conseguisse mais, ganhava. Logo, as pessoas passavam correndo e “varriam” as prateleiras com o braço, deixando tudo cair de qualquer jeito no carrinho. Achava aquela bagunça toda muito legal! Sempre escolhia um time para torcer.

Me odeio por eu não ter sido uma criança hiperativa ou descontrolada, se não, estaria contando outra história muito mais divertida aqui.

Olhando através da janela do carro, Ágatha ficou pensativa, enquanto seus pais conversavam futilidades no banco da frente. Viu um homem, já mais velho, dirigindo o seu carro e pensou “ele é velho e está dirigindo um carro”. Depois, quis ir um pouco além: “esse homem tem uma vida, esposa, filhos, talvez e está ali, no seu carro… em que ele pensa?”. Claro que ela não sabia responder a essa pergunta, mas foi pensando e pensando… Depois, viu uma mulher “ela já foi da minha idade, já fez um monte de coisas que eu fiz, mas sempre diferente do que eu fiz, tudo é diferente para todo mundo”. Pensar era bom para Ágatha, ela sentia-se como controlando o mundo. Podia fazer com que aquela mulher, de repente, tivesse dois filhos, um marido rico (por causa do carro que ela estava dirigindo) e, antes disso, estudava em um colégio de freiras, onde não havia festivais de dança, feiras de ciências e viagens pedagógicas, como havia no colégio dela. “Coitada, não deve ter tido as mesmas alegrias que eu tive”.

Chegando ao seu destino, Ágatha foi fazer compras, sozinha desta vez, a primeira vez em que saía sozinha para aquele lugar onde sempre ia com sua mãe. Foi uma sensação diferente. Primeiro, sentiu como se pudesse tudo, naquele lugar onde o consumismo tomava conta das pessoas, sentiu-se contaminada pelo consumismo, queria comprar tudo aquilo que sua mãe não deixava, queria experimentar a sensação de ter. Porém, lembrou-se de que não tinha dinheiro para comprar tudo o que quisesse, sentiu-se triste e seguiu, automaticamente, para o lugar que deveria ir. “Enfim, estou aqui, preciso comprar só o necessário, pois não terei dinheiro para pagar o que quero”. As pessoas passavam por ela, a maioria com pressa, carregando sacolas enormes, apenas algumas olhavam para Ágatha, mas depois desviavam o olhar. “Será que eu sou tão diferente assim dele?” pensou novamente, aliás, o que ela podia fazer era só pensar mesmo, pois não falaria nada, para que ninguém achasse que ela fosse uma doida. “Posso não ser tão diferente mesmo, aquele rapaz já foi bebê, criança, adolescente, eu também fui então não podemos ser tão distintos” concluiu ela, mas em seguida, viu que seu pensamento não era adequado, “somos diferentes porque vivenciamos sensações, acontecimentos, e estivemos em lugares diferentes”. Depois ela se perguntou se alguém pensava sobre essas coisas, muita gente deveria dizer a ela: “menina deslumbrada, pára de pensar na vida e vai comprar que é melhor”. Ágatha tinha pena dessas pessoas de mente limitada, que não deixavam seu pensamento se libertar das coisas cotidianas e ir além, ir para onde ninguém pensou ou, se pensou, com certeza pensou diferente. “Nada acontece igual para duas pessoas” isto era tão lógico para ela, fazia tanto sentido, não sabia porque, mas ainda iria saber, algum dia, quando seu pensamento se libertasse de vez, atravessasse alguma barreira, até agora intransponível.

Ágatha gostava de pensar. Estava fazendo compras sem sua mãe ao lado, conversando, assim, podia pensar mais ainda. Estava livre, não só da mãe, mas também com os pensamentos livres, com tempo de sobra para pensar no que quisesse enquanto caminhava e comprava as coisas que precisava. Ligou o piloto automático do seu corpo e foi além do ter. Pensar, ser, viver, era o que realmente importava para ela. E não deixaria ser levada por essa onda do ter, não entraria nem no mar, para não ter perigo de ser puxada pela correnteza.

Seleção dos melhores textos que acho que já escrevi. Post de algum dia do ano de 2006.


A dona

Uaba, 21 anos, Recife. Faço Arquitetura e Urbanismo, mas era absurdamente melhor quando cursava Letras. Ansiosa, perfeccionista e sonhadora. Consumista, que só gosta de ganhar presentes. Sempre procrastinando. Humor super oscilante. ♥ English ♥ an adorable green-eyed white rabbit ♥ Travis

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